Pesquisa mostra cabelo como causa do orgulho negro

O Dia da Consciência Negra foi marcado de forma inédita ontem em Montes Claros: um grupo de acadêmicos do curso de Psicologia De uma instituição de ensino da cidade abordou várias pessoas da raça negra que passaram pela praça Doutor Carlos para uma pesquisa sobre o cabelo desse segmento social. A pesquisa foi iniciada nesse ano, quando oito pessoas da raça negra deram depoimentos sobre a importância de preservação do seu cabelo original, acabando com um processo de buscar a mudança do cabelo com técnicas modernas, como alisamento ou mudança de cor.

As acadêmicas Jorlane Pereira Santos e Valéria Dias são algumas das responsáveis pela pesquisa e observam que a literatura aponta várias pessoas da raça negra que estavam insatisfeitas com o seu estilo de cabelo, procurando o cabelo liso. Elas então criaram esse projeto de pesquisa, onde o principal equipamento é um espelho, onde chama a pessoa para se olhar no espelho e fazer ou não fazer um like. O que impressionou foi a quantidade de pessoas da raça que descobriram a importância de ter orgulho com seu cabelo.

Um exemplo foi Anne Caroline, residente no bairro Castelo Branco, que estava na praça Doutor Carlos e aceitou fazer o teste. Ela é bisneta de uma escrava e afirma que morou na infância em quilombo no município de São Francisco. Depois de se olhar no espelho, reafirmou seu compromisso com a sua raça. Porém, um fato marcou sua vida: estava andando de moto pilotada pela sua irmã Ana Carla, quando foi fechada por um motorista branco e de olhos azuis. Ele falou mal sua irmã por completo. Na época, acionaram a Polícia Militar, mas a placa do carro era clonada e o autor não foi encontrado. Anne entende que ainda existe muito racismo em Montes Claros.

A presidente do Conselho Municipal de Igualdade Racial, Luciana Oliveira também reconhece existir muito preconceito e entende que comemorar o Dia da Consciência Negra é manter viva a luta de Zumbi dos Palmares e isso passa pelo reconhecimento das pessoas da raça sobre os cachos dos cabelos. Na sua visão, os atos de racismo que ainda existem são por falta de conhecimentos. Na manhã de ontem (20), junto com a Coordenadoria Municipal de Politicas Raciais, o Conselho Municipal fez o ato em defesa dos direitos da raça negra e contra o racismo.

 

 

Museu regional resgata personagens populares

 

 

 

a mostra

 

O Museu Regional do Norte de Minas abriu ontem, em Montes Claros, a programação especial denominada “Identidade Consciência e Ancestralidade”, lançada nos canais virtuais nesta semana e pela forma virtual desde ontem, com exposição de aquarelas e o resgate de personagens locais da cultura negra, com narrativas diárias da história de cada um nas redes sociais do MRNM. A primeira atração foi a exposição “Sobre Rosas, Cachos, Sonhos... e um bom Café!”, produzidas por Makoffe, nome artístico do montes-clarense Maikon Douglas Oliveira.

A equipe do Muse

a mostrau Regional organizou, ainda, uma série de posts virtuais para o Instagram e o Facebook alusivos à data. Além de vídeos temáticos sobre cultura e resistência negra, um material didático sobre personalidades negras que marcaram a história do Brasil e, também, detalhes personagens populares negros e históricos de Montes Claros e do Norte de Minas. Nomes folclóricos como Tuia, Júlio Galinheiro e Manoel Quatrocentos são resgatados, assim como ícones culturais e educacionais como o mestre de catopés João Farias, Francisco Cardoso, o “Chico Preto”, um dos principais representantes das matrizes africanas na cidade, e a professora Aparecida Bispo, primeira vereadora da história de Montes Claros.

Tem ainda o padre Antonio Carlos da Silva e da figura Leonel Beirão de Jesus, criador da Boneca de Leonel – inspirada nos estandartes dos carnavais de Recife. O trabalho conta com a produção das educadoras Dayane Botelho e Isabella Lima e da historiadora Karine Dias, com mediação de André Luiz (vídeos temáticos), suporte de Jaques Fróis e supervisão geral do diretor do MRNM, José Roberto Lopes de Sales.

O montes-clarense Maikon Douglas Oliveira, de 23 anos, apresenta em “Sobre Rosas, Cachos, Sonhos... e um bom Café!”, uma técnica pessoal de aplicação de aquarelas à base de café em folhas de papel. Nos 10 trabalhos, organizados desde 2019, são retratadas pessoas anônimas. As imagens impressionam pela riqueza de detalhes dos desenhos, como as emoções e as expressões corporais em cada rosto, além dos contrastes de iluminação e os diversos tons obtidos com a matéria-prima. Segundo ele, a produção da tinta utiliza água e o pó solúvel de café. “Vou desenvolvendo várias tonalidades à medida que a solução fica mais forte ou mais fraca”, revela.

Assim como grande parte das pessoas que se viram obrigadas ao distanciamento social com a pandemia do novo coronavírus, Makoffe também conviveu com as oscilações emocionais. “Cada um teve uma reação e passei a criar menos, embora tenha sido a arte o meu grande apoio para superar qualquer dificuldade”, disse. (GA)

 

 

Padeiro é exemplo bem sucedido para superar dificuldades

Ernane Martins de Souza

 

O padeiro Ernane Martins de Souza, 40 anos, caçula de uma família de oito irmãos tem se valido de muito foco e determinação para vencer dificuldades e se tornou um exemplo de que a cor da pele não é empecilho para empreender. Pelo contrário, para Ernane, ser negro é motivo de orgulho. O empreendedor ilustra os números de uma pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada em 2018 pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), com apoio do Sebrae, que revelou que de cada 100 brasileiros negros adultos, 40 são empreendedores.

Ele é proprietário de uma padaria em Montes Claros que emprega 25 pessoas. A empresa vende mais de 100 mil pães por mês e atende cerca de 250 estabelecimentos como hamburguerias, lanchonetes e mercearias. E o seu próximo passo será fornecer para outras cidades do Norte de Minas. O empreendedor é dono de uma história de superação. “Desde criança, já pensava em empreender. Naquela época, ajudava meu pai a vender coisas que ele produzia na roça. Desde então, coloquei na cabeça que um dia eu teria a minha empresa”, conta.

Determinado, aliou a necessidade com a vontade de empreender. “Aos 18 anos, me tornei pai e tive que me virar. Então, comecei a vender salgados na rua. Dois anos depois, com a ajuda da minha esposa – e com apenas R$ 50,00 no bolso –, montei uma pequena padaria com balcões emprestados. A partir daí, nunca mais parei de trabalhar. Já se vão mais de 20 anos de trabalho árduo. Tudo feito com muito amor e dedicação”, relata.

Para o microempreendedor, o fato de ser negro nunca prejudicou seu crescimento como empresário, mas ele conta que em alguns momentos se sente tratado de forma diferente. “Não chega a ser preconceito ou racismo, mas, quando você chega num banco para tentar um empréstimo, é comum ser olhado com certa desconfiança, o que me deixa meio para baixo. Mas isso nunca me fez desistir. Mostro meu caráter, meu valor, meu trabalho e logo a desconfiança é superada. Quanto mais consigo crescer nos meus negócios, mais orgulho eu sinto da minha cor e da minha origem”, afirma.

Pai de quatro filhos e empreendedor reconhecido, Ernane faz uma autoavaliação: “Olhando tudo que passei e o que sou hoje, posso dizer que sou um vencedor. No início, passava noites sem dormir ou acordava de madrugada para trabalhar. Não participava de festas e não existia feriado ou fim de semana para mim. Mas não reclamo, só agradeço. Me sacrificava porque queria ter meu negócio e crescer. Os resultados não caem do céu, é preciso muita luta, trabalho e dedicação, independentemente de ser branco, pardo ou negro”, enfatiza. (GA)