Unimontes cancela exibição de filme sobre ditadura e gera protestos

O filme "1964: O Brasil entre Armas e Livros" foi impedido de ser exibido no campus da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), no último dia 11 de abril, gerando muita revolta e indignação, pois, no mesmo horário e local, os movimentos sociais realizaram a exibição do documentário “Que Bom te Ver Viva”, com narrativas de mulheres que sofreram tortura. O grupo ‘Direita Minas’, que teve o filme proibido, se queixa de que a Unimontes suspendeu a exibição por pressão de estudantes e professores de viés esquerdista; e que, também, tinha prometido a suspensão da exibição do outro filme, mas isso não ocorreu, pois o ato acabou se transformado em defesa de Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente da Venezuela, Nicolas Maduro.

O episódio gerou mais desgaste para a Unimontes. A reitoria, através de nota de repúdio, salienta que “como construtora de uma cultura da paz, da harmonia e da diversidade, trabalha diuturnamente para se manter como uma instituição que educa para a tolerância e para o respeito às várias formas de pensar e de agir. Neste sentido, a Unimontes repudia qualquer tipo de ação que estimule, promova ou incite a cultura do ódio dentro de suas instituições. Qualquer atitude de servidor, estudante ou pessoa que esteja vinculada à comunidade acadêmica, que fomente o ódio e incite a desunião dentro da Universidade, será devidamente apurada para aplicação das medidas cabíveis no âmbito institucional e da Lei. Manteremos a posição de paz e de tranquilidade”.

O documentário "1964: O Brasil Entre Armas e Livros" vem causando polêmica na internet por traçar uma perspectiva alternativa sobre o conturbado período da ditadura militar brasileira. Dirigido por Felipe Varelim e Lucas Ferrugem, do site Brasil Paralelo, o filme defende, entre outros pontos controversos, que havia uma perigosa ameaça comunista e que a censura e a repressão não foram tão severas como contam os livros de História, escritos por pessoas contaminadas por ideais da esquerda. Para traçar essa  versão dos fatos, a produção  ouviu filósofos, pesquisadores, jornalistas e historiadores.

O grupo Direitas Minas divulgou que “a Unimontes cedeu à chantagem e às ameaças dos grupos de esquerda que lá vicejam, e cancelou a exibição do filme do Brasil Paralelo: "1964: O Brasil entre Armas e Livros". Dia infeliz para a instituição, que assumiu a partir de agora o papel de refém dos protoditadores adeptos da censura que tanto dizem combater. Dia triste. Mais uma Universidade perdeu seu papel de lugar de debate de ideias. Esperando ver se igual medida será aplicada aos eventos claramente políticos de esquerda que lá vejo diuturnamente. Haverá salvação institucional?”.

Um vídeo do grupo Direita Minas, que coordenou a campanha de Jair Bolsonaro e Romeu Zema em Montes Claros, mostra a festa realizada pelos movimentos sociais para discutir o documentário “Que Bom te Ver Viva”, de Lúcia Murat, com narrativas de mulheres que sofreram tortura, foi realizado e se transformou em ato político. O evento faz parte do ciclo “Encontros com a História”, evento especial do Programa de Pós-Graduação de História, que tem como tema central os “55 Anos do Golpe Militar”. A programação se estenderá até o próximo dia 24 de abril, com participação aberta para acadêmicos da graduação, mestrandos, egressos, professores e pessoas da comunidade em geral.

O médico Ezequiel Novais que é um dos organizadores da exibição do filme "1964: O Brasil Entre Armas e Livros" afirma que a direção do Centro de Ciências Humanas é que proibiu a exibição do filme, após receber ameaças de alunos e professores, o que é lamentável, pois parece que retornou a época da censura. O grupo está discutindo onde fará a exibição do filme, mas salienta que não pretende provocar qualquer tipo de risco ou prejuízos para quem quer que seja.

O ciclo “Encontros com a História”, realizado pela Unimontes, realizou no dia 5 de abril  a exibição do documentário “O Dia que Durou 21 Anos”, do cineasta Camilo Galli Tavares, e o debate com o público sobre o filme, mediado pelo professor doutor Laurindo Mékie Pereira. No dia 11 de abril foi exibido o documentário “Que Bom te Ver Viva”, de Lúcia Murat e no dia 24, às 19 horas, acontece a mesa redonda “Para não esquecer: Memórias da Ditadura no Brasil”, com a participação da professora Maria Jacy Ribeiro, do Instituto Histórico Geográfico de Montes Claros, e do professor Guilherme Costa Pimentel, egresso do mestrado em História da Unimontes e autor de um estudo sobre pessoas de Montes Claros ligadas ao comunismo e que foram reprimidas durante o regime militar. (GA)