O papel dos índices de confiança do consumidor em épocas de crise

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumo agregado das famílias corresponde a cerca de 63% do produto interno bruto (PIB), percentual similar ao de diversos países. Por isso, a capacidade de prever o consumo é um importante elemento para a previsão do próprio PIB. Além disso, se as recessões e as expansões dependem do comportamento do consumo agregado, prevê-lo ajudaria analistas de mercado e do governo a anteciparem o estado futuro da economia e, consequentemente, prepararem-se com maior antecedência para debelarem choques adversos.

Não por acaso, os mais diversos analistas acompanham a evolução dos indicadores de confiança do consumidor em muitos países. No caso norte-americano isso impulsionou diversos acadêmicos a estudarem a capacidade preditiva desses indicadores.

No Brasil, essa pesquisa ainda é incipiente, mas nossas investigações têm conduzido a resultados semelhantes ao do caso norte-americano: os indicadores de confiança do consumidor têm capacidade de antecipar o comportamento do consumo agregado, embora, ao se levar em conta outros indicadores macroeconômicos, o poder preditivo incremental dos indicadores de confiança do consumidor diminua.

Nesse sentido, em alguma medida as informações captadas por esses indicadores já estariam contidas em indicadores macroeconômicos, como, por exemplo, defasagens do próprio consumo, do PIB, da taxa de juros Selic e do retorno do Ibovespa. Entretanto, é importante destacar que os indicadores de confiança são rapidamente calculados e disponibilizados muito antes dos dados agregados de consumo e do PIB.

Ressalta-se que consideramos em nossa pesquisa três indicadores de confiança produzidos pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP): índice de condições econômicas atuais (Icea), o índice de expectativas do consumidor (IEC) e o índice de confiança do consumidor (ICC), que é simplesmente uma média ponderada dos dois índices anteriores. Esses indicadores variam de 0 a 200 e são construídos com base em perguntas dicotômicas (respostas positivas ou negativas) feitas mensalmente a cerca de 2.200 consumidores do município de São Paulo.

Recentemente observou-se uma expressiva queda do ICC, o que era esperado em razão da crise sanitária da covid-19. No mês de março houve uma queda de 5,46% em relação a fevereiro, enquanto em abril a retração foi de 10,11% em relação a março. Desde o início da série histórica em junho de 1994, somente em seis meses ocorreu uma queda mais acentuada quanto à de abril de 2020.

Essas quedas ocorreram nos seguintes períodos: dezembro de 1998 (-13,31%), quando ocorreu a moratória da Rússia; março de 1999 (-15,81%), quando ocorreu a crise de desvalorização do real; junho (-22,42%) e outubro (-11,11%) de 2001, ano no qual a Argentina declarou moratória da dívida externa; junho de 2002 (-12,21%), pouco antes da primeira eleição de Lula; setembro de 2005 (-12,53%), quando ocorreu o escândalo do Mensalão, conforme ilustrado na figura abaixo:

 

 

Portanto, desde 2005, não experimentávamos uma queda tão acentuada no ICC. Como resultado, espera-se observar, quando for disponibilizado pelo IBGE, uma queda considerável no consumo agregado brasileiro no primeiro semestre de 2020. Inclusive porque as necessárias medidas de contenção da epidemia têm considerável impacto sobre certas categorias de consumo, especialmente serviços.

A melhora da confiança do consumidor, em épocas de crise, depende em grande parte das medidas tomadas pelos governantes. Há um plano nacional claro e articulado entre governo federal, estados e municípios para o enfrentamento da crise sanitária da covid-19? Como consumidor, suas expectativas melhoraram ou pioraram no mês de maio? Aguardemos a divulgação do ICC deste mês.