Pandemia e urbanismo (parte 3)

Ao mesmo tempo, tais dados deveriam ser relativizados por aspectos socioculturais, infraestruturais, geográficos, climáticos, políticos e econômicos, dentro de muitos outros fatores a serem levados em consideração por meio de uma abordagem transdisciplinar, que possa inclusive tornar a atividade urbanística uma das áreas mais férteis para esta nova abordagem holística para a ciência contemporânea, especialmente em centros urbanos de crescente urbanização, nos países em desenvolvimento, particularmente.

Um imenso campo de pesquisa se abre, portanto, a partir dessa dramática crise sanitária atual, que os chineses – que aparentemente a exportaram –, escrevem em sua língua por meio da associação de dois ideogramas: “desastre” e “oportunidade”.

Apesar de suas limitações atuais, transformar o desastre em oportunidade é um claro indício de sua milenar sabedoria, e talvez seja mesmo com este espírito (e com fartos recursos para a pesquisa e sua necessária infraestrutura) que uma nova leva de urbanistas transdisciplinares possa avançar com sua própria contribuição científica e profissional para que a vida na Terra seja mais baseada nos ideais franceses de “liberdade, igualdade e fraternidade”, ofertando uma vida mais longa e saudável para toda a população mundial.

Novas cidades/territórios e intervenções urbanas em cidades e comunidades existentes, voltadas para a elaboração de inovadores sistemas de espacialidade e interação interpessoal e social – que tornem desnecessária a improvisada adoção do distanciamento social (ou físico, como preferem alguns) como uma ação paliativa diante da desafiadora “criatividade” dos vírus de última geração –, poderão surgir, em resposta e antecipação de novas pandemias, por meio da engenhosidade humana.

Talvez a oportunidade surja de uma comoção (e conscientização) coletiva, pelas vidas perdidas, alterando rotas mais egoístas do sistema global, fazendo com que o homem se reconecte com a sua natureza e meio ambiente. Sendo essa mudança de paradigma passível de redirecionar a economia global para um green new deal ou para um “novo normal” de um mundo mais cooperativo, sistêmico e igualitário.

Ou seja, um mundo de novas oportunidades: um “urbanismo profilático” e esperançoso, otimista e vibrante, inventivo e surpreendente, belo e útil, como resposta definitiva contra a dor e o sofrimento humanos, perfeitamente previsíveis em situações menos inteligentes, nas quais esta engenhosidade é acanhada por mediocridades e egoísmos, o lado sombrio da mesma humanidade brilhante na qual apostamos. Afinal, a humanidade sempre tem buscado alternativas, ora visionárias, ora pragmáticas, para se vencer os desafios de cada época com criatividade, imaginação e arte.

Para aqueles que acreditam ser o universo criação de uma inteligência divina, como tudo aquilo que nele ocorre – como a própria ciência desenvolvida pela humanidade –, esta é também uma oportunidade para investir em recursos necessários para que tais “novos urbanistas” possam atuar de forma digna, segundo os desejos de um Deus benigno e protetor, cuidando melhor de suas filhas e filhos, nesta e nas futuras gerações, por Sua própria iniciativa e decisão.