Passagem – racionalidade e política na quarentena (parte 3)

Não é preciso mais para lamentarmos a falta de uma esfera pública robusta, enfraquecida por nichos que propalam mensagens impermeáveis ao debate, aderentes à tibiez psicológica travestida no vigor surdo dos gritos de palavras de ordem irrazoáveis. Fechados ao dissenso racional, sem diálogo com o contraditório, esses nichos, numericamente insuflados pelos sentimentos de simpatia e antipatia no moto-contínuo das aprovações e reprovações nas redes sociais, são arrastados psiquicamente por motivações que não se deixam examinar, nem querem se verificar, já que se bastam e satisfazem na coação das forças grupais.

Para dizer com outra aluna de Husserl, a filósofa Edith Stein (1891-1942), trata-se de um fenômeno social de massa, em que as personalidades individuais cedem sua vontade e capacidade decisória à onda emocional, que as enleva combalindo sua capacidade crítica. Nas lacunas à integridade política de cada um, cujo aparecer e ser afetado, sem distância e anonimato, pedem a coragem e a prudência de posicionamentos consequentes, as sombras destes usos de massa das redes sociais não constroem consensos. Seus meios irradiam reatividade e excitabilidade em que, se a prudência se degrada em medo e intimidação, paralelamente, a coragem se distorce em temeridade e covardia. Ao excederem as redes elas se traduzem não somente em condutas que elegeram governantes, mas em comportamentos que hoje ameaçam a saúde pública e a vida de todos.

As privações impostas pela pandemia no combate pela vida parecem atingir em cheio dois termos legados pela filosofia de Aristóteles e que, no decorrer de milênios, se tornaram centrais na continuidade das reflexões praticadas, desenvolvidas e instituídas no mundo ocidental. São eles a vida boa e o zoon politikon, ou seja, sua concepção de vida ética e a vida comum, com e para os outros, a condição civil que o filósofo peripatético atribui à natureza do animal humano. No entanto, qual vacina, o que se atinge é o que se pretende defender, possibilitando seu fortalecimento. Neste caso, a restrição de acesso a alguns dos nossos mais caros valores pode, quem sabe, ser a evidenciação de que, a começar pela vida que nos une e nos aproxima em sua vulnerabilidade, tais valores se constituem na livre adesão a uma luta – incessantemente retroativa – por uma base de igualdade política que nos possibilite a liberdade da vida boa.

Cristãos ou não, a celebração da ressurreição nos remete a como, na equalização da quarentena e do distanciamento social, estamos vivendo o compartilhamento laico de um verdadeiro tempo pascal, estendido até quando necessário. Esse compartilhamento equivale ao desafio de abraçarmos sacrifícios que significarão, para um incontável e jamais sabido número de pessoas, dentre eles talvez nós mesmos e os nossos, uma vitória sobre a morte.

Com a expectativa de voltar ao convívio público em segurança, nos congraçamos junto a todos os sensatos que, sem subjugarem as evidências e a racionalidade aos caprichos dos desejos e das sombras ideológico-conspiratórias, estejam unidos para tornar este período para o máximo de nós, de fato, não um fim de caminho, mas dias, semanas e meses de uma passagem. Esperamos que, mais do que simbólica, esta seja uma oportunidade de resgate de valores fundamentais, com meditação e renovação destinada ao tempo que nos aguarda, seja ele qual e como for. Que façamos dele o melhor que pudermos, sabendo que as mais vitais das ações políticas hoje são as medidas sociais para mitigação da disseminação do vírus que, junto à cegueira ideológica contra a racionalidade, seja nas condutas de massa estimuladas em redes sociais, seja nas decisões de quem ocupa cargos eletivos, nos ameaça de morte.