Juiz não esconde emoção com ato de adoção

Por mais imparcial que seja o trabalho da Justiça, quando os processos envolvem crianças e adolescentes, é muito difícil não se emocionar com o sofrimento dessas pessoas. Tão jovens, elas já percebem que a vida pode ser bastante dura. Essa sensibilidade é visível na forma como o juiz Spagner Leite construiu sua sentença, que já se inicia com um poema de Humberto Gessinger: “Eu vejo o futuro/Não vejo a hora/Do sonho se realizar”... No documento, o magistrado destaca que, mesmo com o passado de sofrimento, Tainara não se tornou amarga ou perdeu a esperança. Algumas vezes, ele recebeu cartinhas da adolescente dizendo que acreditava em um final feliz para sua história.

“Sua luta e perseverança não foram em vão. Sendo adotada já adolescente, o que é raro em nosso País, Tainara nos deu uma lição de vida”, diz. Nos dois anos e cinco meses em que Tainara ficou no abrigo em Pirapora, ela conquistou a todos com quem conviveu, assim como a equipe da Vara da Infância que acompanhou seu processo. De acordo com o magistrado, não seria possível demonstrar em sua sentença todo o amor envolvido nessa história. “Não há como retratar o sentimento dos servidores do abrigo, do Judiciário e do Ministério Público, de requerentes, da adolescente e deste magistrado”, declarou.

O juiz relatou também as palavras da adolescente Marisol na hora de se despedir da amiga e colega de abrigo: “Tá vendo? Toda história tem um final feliz!” Ao concluir a sentença, o magistrado disse que, para os demais processos e histórias que ainda virão, “só resta esperar a hora para ver os sonhos se realizarem, na certeza de que toda a história tem um final feliz”.  Mesmo sem perder a esperança de um final feliz, casos de adoção tardia como o de Tainara, ainda são raridade. Isso porque a grande maioria dos adotantes procuram crianças recém-nascidas ou bem pequenas, que representam apenas uma ínfima parcela dos menores disponíveis para adoção no estado.

De acordo com dados do Cadastro Nacional de Adoção, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em Minas, embora o número de pretendentes a pais adotivos seja oito vezes maior do que o de crianças e adolescentes aptos à adoção, ainda há cerca de 650 menores à espera de um lar. Sendo que, desse total, 92% têm mais de 7 anos. Na contramão desses números, 54% dos interessados em adotar querem crianças com até 3 anos. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), por meio da Coordenadoria da Infância e da Juventude (Coinj ), realiza diversas ações com a finalidade de promover a adoção de crianças a partir de 3 anos, assim como a adoção de irmãos e crianças portadoras de necessidades especiais. (GA)