O GRÃO DE AREIA

Todos os dias nos noticiários somos bombardeados com situações que nos encabulam e que por vezes podem até nos tirar a paz. Por isso é sensato que nos coloquemos em reflexão. Assistimos famílias sendo desfeitas, pessoas que por insatisfação pessoal ou fraqueza maltratam as pessoas mais próximas e não raramente essas mesmas pessoas estão no seio familiar. E nos perguntamos onde estão as raízes desses problemas, por que tanta maldade, violência e tanta tristeza provocada? Não é difícil compreender que as raízes das mazelas sociais estão, quer queiramos ou não, principalmente na formação familiar. A família é sem dúvida a célula primeira da sociedade.  Quando no meio familiar tratamos com respeito nossos pais e filhos muito provavelmente teremos bons cidadãos para a sociedade. Do contrário podemos esperar maldades absurdas. Benjamim Franklin, filósofo americano, afirmava que “paz e harmonia são a verdadeira riqueza de uma família.”

Ao que nos parece quando dividimos as gerações do século XX e as do XXI compreendemos imediatamente que houveram mudanças significativas na formação das famílias bem como na educação no berço familiar. Por incrível que pareça em épocas passadas não tínhamos tantas leis protetivas aos seguimentos sociais e estatutos diversos. Ademais tínhamos menos escolaridade, menos instrução, mas a família era lugar total de respeito, consideração e obediência. Com o advento da popularização da internet, dos celulares, do mundo virtual e também dos vários estatutos sociais modeladores houve, por vezes, interpretações equivocadas. Não é difícil conceber o entendimento de que em muitos lares não se fala mais em corrigir um filho. Pais inegavelmente têm medo de dizer não! Não se colocam como autoridade em casa para restringir horários e inserir limites na convivência para a educação familiar. E não se encorajam para separar o joio do trigo. Por consequência, muitos vivem e pensam que tudo é normal. Em um completo contrassenso afigura-se que os limites são empecilho para o desenvolvimento da criança. E dessa maneira podemos não contribuir com maior valores e disciplina ao amadurecimento desta geração. Vale lembrar que acreditamos que a família é indubitavelmente o embrião de pérolas na sociedade! E para que sejam formadas essas pérolas é preciso crer que essa transformação não se dá assim com tanta tranquilidade, com destempero exagerado e somente com o SIM!

Um dia um pescador chegou em casa e levou várias ostras para sua refeição e de sua esposa. Durante o jantar ao degustar uma das ostras ele deu uma forte dentada em uma das ostras e percebeu que havia algo bastante rígido, mas muito bonito - era uma pérola no meio da ostra. Naquela hora o homem a presenteou a sua esposa que ficou muito feliz! Mas como essa pérola foi parar lá? Na verdade, dias antes aquela ostra estava muito feliz com outras ostras, quando sentiu fortes dores em seu interior que a deixaram muito triste. Ela ficou então sozinha, isolada, pois não sabia como resolver aquele problema. As outras ostras se indagavam o porquê de ela ficar agora tão apartada já que todas estavam em passeios e cantavam alegremente. Mas aquela ostra triste tinha engolido um grão de areia que causava uma enorme dor ao seu organismo. Para que aquela dor passasse, a ostra teria que se transformar.

Então o tempo passou e a ostra no seu canto triste e acabrunhado desenvolveu em seu interior um revestimento rígido e liso que fez com que aquele grão de areia não mais causasse tamanha dor. Desse modo foi formada aquela brilhante pérola que mais tarde seria encontrada pelo pescador e entregue à sua mulher. Desde a formação completa daquela pérola no interior da ostra nunca mais ela sofreu ou teve dor. Todo o seu organismo se desenvolveu para que aquela pérola fosse formada e a ostra voltasse a cantar e viver feliz. “No meio da dificuldade encontra-se a oportunidade” já muito antes nos alertava o físico alemão Albert Einstein. Assim somos nós também! Por vezes queremos nos esquivar de todo o sofrimento. Porém as dificuldades, as provações ou as dores são muitas vezes estágios para que sejamos muito mais felizes e mais fortes para enfrentar as batalhas diárias que se avizinham e para que tenhamos melhores cidadãos para a nossa sociedade.

 

(*) 1º Tenente PM – Comandante da 145ª Cia /10º BPM