Ciro dos Anjos luta para acabar com preconceito

A creche Geração Eleita recebe as crianças do bairro

O bairro Ciro dos Anjos, sediado no Grande Maracanã, tem se esforçado para acabar com o preconceito de área violenta. Considerado um dos bolsões de vulnerabilidade social de Montes Claros, o bairro tem aproximadamente 600 casas com 3.000 moradores. É pequeno e surgiu da iniciativa do então prefeito Luiz Tadeu Leite em doar terrenos para famílias carentes da cidade em volta da lavandeira que existia no local. O nome do bairro é homenagem ao escritor montes-clarense que coloca a cidade como a única do Brasil com dois imortais na Academia Brasileira de Letras, junto com Darcy Ribeiro. O local onde foi criado o bairro pertencia à fazenda da família de Ciro dos Anjos. A escola do bairro leva o nome de Mestra Fininha, mãe de Darcy. No ano de 1987 o então prefeito repassou aos moradores os terrenos recebidos pela Prefeitura. O bairro tem uma situação incomum: todas suas ruas são asfaltadas.

Os moradores afirmam que o maior problema do bairro Ciro dos Anjos é o preconceito, pois é considerado violento. Isso acaba virando moeda de duas caras: os traficantes de drogas buscam aliciar os jovens para seu batalhão e impõem a lei do silêncio, mas, por outro lado, impedem que criminosos perturbem a tranquilidade do local. O Jornal GAZETA percebeu o temor de muitos moradores em abordar o assunto. Um deles afirmou que a fama de bairro violento surgiu por causa dos matadores, ligados ao tráfico de drogas, que saiam  dali para executar muitas pessoas que enfrentavam as lideranças do tráfico. Porém, asseguram que atualmente o Ciro dos Anjos é pacificado.

O líder comunitário Geraldo José dos Santos está à frente da Associação dos Amigos e Moradores do Ciro dos Anjos, criada 6 de agosto de  2008, e tenta substituir a Associação Comunitária, criada em  16 de novembro de 1991 e registrada em cartório em 24 de abril de 1992, mas que teve de ser fechada por inadimplência na atualização de documentos. Na nova associação, um aspecto curioso: não consegue filiar os moradores e, sem fonte de renda, está desmobilizada. Geraldo, que foi treinador do time de futebol, luta para manter aceso o associativismo dos moradores. De bicicleta ou mesmo com o carro, percorre as ruas lutando pelas causas.

Nascido em Porteirinha, na comunidade de Mululu, veio morar em Montes Claros na comunidade rural de Pentáurea, quando tinha três anos de idade, depois que sua família decidiu apostar na cidade grande como forma de melhorar de vida. Quando tomou conhecimento que o então prefeito Luiz Tadeu Leite estava doando terrenos para famílias carentes, nas imediações do Maracanã, veio arriscar. Conseguiu o seu terreno, todo escriturado, onde construiu sua casa e reside com a esposa e dois filhos. Garante que não troca o bairro por nenhum outro da cidade.

A sua luta como líder comunitário não começou agora: na época do prefeito Athos Avelino afirma que foi criado o orçamento participativo, onde cada grande área habitacional poderia escolher cinco reivindicações, onde três seriam executadas. Ele puxou a campanha para serem criados Postos de Saúde e foi assim, durante a votação, que conduziu para serem criados nos bairros Joaquim Costa e Vila Campos. O bairro Ciro dos Anjos é atendido por essas duas unidades. Ele lamenta que muitas demandas apresentadas como prioridades não tenham sido acatadas.

O comerciante Cicero Feliciano Barbosa, de 49 anos, saiu de Cruzeiro do Oeste no Paraná e veio arriscar a vida em Montes Claros. Montou a mercearia no Ciro dos Anjos há 20 anos e garante que o local é tranquilo demais. Ele pratica a política da boa convivência, sendo amigo de todos. Lamenta que o bairro não tenha placas de identificação das ruas, que anteriormente tinha as letras do alfabeto, mas passou a receber o nome de pessoas. A sua vizinha Márcia Gomes Pereira, de 43 anos, mora no Ciro dos Anjos desde os 13 anos, pois sua mãe Luzia é uma das primeiras moradores do bairro. Márcia ainda guarda na lembrança quando comprou o lote onde está sua casa: junto com o marido deu a geladeira, bicicleta e equipamento de som. Afirma que o bairro é excelente para morar, pois tem segurança.

 

A quadra poliesportiva ficou inativa com o fim do Segundo Tempo

 

Urbanização do Córrego Bicano criará nova rota viária

 

A urbanização do Córrego Bicano, com o asfaltamento das duas pistas e, com isso, colocando o bairro Ciro dos Anjos no novo sistema viário da cidade, com novas rotas de veículos é a maior reivindicação da Associação dos Amigos e Moradores, através de Geraldo José dos Santos. A canalização do córrego foi concluída em 2004, mas o asfaltamento das pistas laterais ainda não. O prefeito Humberto Souto acredita que conseguirá fazer essa obra com o novo contrato a ser assinado com a Copasa. A dona de casa Salete Souza mora há sete anos no bairro Ciro dos Anjos e espera com ansiedade a urbanização do córrego, pois afirma que muitas pessoas jogam lixo e entulho no local e os moradores são obrigados a conviverem com baratas, ratos, escorpiões e até cobras. Além disso, tem o problema da poeira e da lama.

Outro pedido é para  gramar o campo de futebol, localizado no bairro Canelas, mas que atende a todos os bairros daquela parte da cidade. A obra foi iniciada em 2012, quando o prefeito Luiz Tadeu Leite iniciou as obras dos vestiários e cercou a área. Está do mesmo jeito. Na versão de Geraldo José, o futebol se transforma em fator de inclusão social, pois o jovem que pratica o futebol não é aliciado pelo tráfico de drogas. A sua opinião é reforçada pelo presidente do NASA, time de futebol que agrega os moradores daquela parte da cidade e que foi criado em 1994 e trás uma série de títulos, como campeão amador, tricampeão varzeano, interbairros, interclubes, juniores e conta com 150 jovens nas atividades. No sábado, às 11 horas, debaixo do forte sol daquele horário, os meninos faziam o treinamento. Eles mostram que a Prefeitura fez até mesmo a drenagem para colocar o gramado, mas acabou desperdiçando, ao não concluir a obra.

Na área desportiva, Geraldo José afirma que a quadra poliesportiva que fica na área anexa da escola municipal Mestra Fininha, está inativa, desde quando foi extinto o programa Segundo Tempo, que atendia às crianças e adolescentes com atividades esportivas. Gean Felipe, de 13 anos, lamenta que o programa tenha sido extinto e, com isso, deixou o espaço ocioso. Ele afirma que apenas os “peladeiros” usam o local, de vez em quando. Outra reclamação de Geraldo José é que estava programada a construção de um campo de futebol soçaite e uma quadra de peteca, dando uma concepção de Vila Olímpica, mas nada saiu do papel.

A construção da sede da associação, na área anexa à escola municipal Mestra Fininha, que pode ser transformada em Salão Comunitário e sediar cursos profissionalizantes, é outra campanha. Geraldo José afirma que o bairro precisa muito de projetos sociais para viver em paz. Outra reivindicação é para colocar mão única ou faixa elevada na rua Olga Benário e, assim, eliminar o risco de acidentes com as crianças da creche Gente Eleita. Maria Eduarda Alves Aguiar, de 13 anos, reforça a necessidade de resolver a situação, pois considera a rua muito estreita para o movimento de carros e motos. Alguns moradores sugerem que seja transformada em mão única, enquanto outros pedem uma faixa elevada nas proximidades da creche.

O presidente José Wilson Guimarães, da Empresa Municipal de Trânsito e Transportes (MCTrans), afirma que o pleito dos moradores será atendido, pois pediu aos técnicos da empresa para analisarem qual a melhor situação. Ele marcou para a próxima quinta-feira uma reunião no bairro, quando será tomada a medida cabível. (GA)

 

A horta comunitária abastece a escola e o bairro

 

Horta Comunitária é exemplo de inserção social

 

A Horta Comunitária do Ciro dos Anjos é um exemplo bem sucedido de inserção social.  A direção da escola municipal Mestra Fininha estava preocupada com a utilização inadequada da sua área anexa, por dependentes químicos e, por isso, decidiu criar a horta. Para isso, chamou 16 donas de casas e as estimulou a fazer o plantio de alface, coentro, cebolinha e várias outras. A escola fornecia a água e material e, como compensação, recebia uma parte do que foi colhido, para ser usado na merenda escolar. Mara Maria Pereira Dutra e Josefa Justo são duas das quatro remanescentes da criação desse projeto. Atualmente são 11 mulheres envolvidas na iniciativa, de forma organizada e que permite um faturamento mensal de R$300,00 a R$800,00.

A aposentada Mara Maria Pereira conciliou durante muito tempo o trabalho de técnica de enfermagem com o plantio da horta e não reclama de nada, pois afirma que essa sua tarefa acaba sendo útil para sua saúde, pois não a deixa entrar em depressão. Nascida em Almenara e residindo em Montes Claros a mais de 50 anos, ela afirma que aos 65 anos de idade gosta de ir a horta para molhar ou então colher o que plantou. Não se preocupa com o faturamento e o que colhe é vendido para os amigos e moradores do bairro. Afirma que esse é o melhor remédio, pois serve de terapia ocupacional.

A sua colega Josefa Justo, de 52 anos, ainda concilia o tempo de horta comunitária com a de empregada doméstica e afirma que essa produção a ajuda na renda familiar, além da terapia. A sua família veio do Ceará e passou a residir no Ciro dos Anjos e ela é entusiasmada com esse projeto da horta. Para melhor desempenho e resultados, lembram-se do apoio de voluntários, como um agrônomo da Emater que ensinou as melhores técnicas. (GA)

O presidente do NASA, Márcio Soares, espera o campo gramado